depois do pesadelo receber
insônia, sentinela que vigia
vigília indesejada em que me via
em vias de jamais espairecer

enquanto me lamento por não ser
aquele consagrado desde a pia
o tempo segue em dia e depois dia
ninguém pode impedir o amanhecer

sozinho, por escolha ou por destino
não sei se é mais difícil ser assim
eu sei que minha sina eu não ensino

talvez bem pouco veja além de mim
e assim meu próprio sangue eu contamino
contando ter assim sei lá que fim.

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4 Respostas to “”

  1. Gloria Says:

    Inutilia truncat

  2. danielkamykovas Says:

    tão ruim assim?

  3. Gloria Says:

    Se vc usa palavras só pra rimar está versando, não está fazendo poesia.E vc é poeta,vc tem um peito de poeta,vc tem um dom. se preocupe menos com a metrica. Faça como a Clarice, escreva para viver, ou como o Drummond, para se esvaziar.
    Uma historinha:
    Tolstoi brigava com os revisores pq diziam q ele repetia muito as palavras e o texto dele era fluido “demais”(popular) entao a editora nao qria publicar sem dar uma limpada nos originais. O Tolstoi nao aceitava q “corrigissem” seus textos pq sabia q cada palavra sangrava, a obra dele tinha alma. E apesar de escrever “errado”se tornou um dos maiores escritores da historia da literatura.
    Nao q versos exatos, no sentido de serem perfeitamente metrificados, seguindo a todas as normas doq seja uma estrofe impecavel, até brilhantemente escrita, nao tenha valor, tem valor sim, valor de expressao. Mas tudo é expressao. Poesia é arte e arte é mais q expressao, arte é alma e se cada palavra nao sangrar, ainda nao é poesia.
    .

  4. Gloria Says:

    Não faças versos sobre acontecimentos.
    Não há criação nem morte perante a poesia.
    Diante dela, a vida é um sol estático,
    não aquece nem ilumina.
    As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
    Não faças poesia com o corpo,
    esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

    Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
    são indiferentes.
    Nem me reveles teus sentimentos,
    que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
    O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

    Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
    O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
    Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

    O canto não é a natureza
    nem os homens em sociedade.
    Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
    A poesia (não tires poesia das coisas)
    elide sujeito e objeto.

    Não dramatizes, não invoques,
    não indagues. Não percas tempo em mentir.
    Não te aborreças.
    Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
    vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
    desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

    Não recomponhas
    tua sepultada e merencória infância.
    Não osciles entre o espelho e a
    memória em dissipação.
    Que se dissipou, não era poesia.
    Que se partiu, cristal não era.

    Penetra surdamente no reino das palavras.
    Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
    Estão paralisados, mas não há desespero,
    há calma e frescura na superfície intata.
    Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
    Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
    Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
    Espera que cada um se realize e consume
    com seu poder de palavra
    e seu poder de silêncio.
    Não forces o poema a desprender-se do limbo.
    Não colhas no chão o poema que se perdeu.
    Não adules o poema. Aceita-o
    como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
    no espaço.

    Chega mais perto e contempla as palavras.
    Cada uma
    tem mil faces secretas sob a face neutra
    e te pergunta, sem interesse pela resposta,
    pobre ou terrível, que lhe deres:
    Trouxeste a chave?

    Repara:
    ermas de melodia e conceito
    elas se refugiaram na noite, as palavras.
    Ainda úmidas e impregnadas de sono,
    rolam num rio difícil e se transformam em desprezo

    Carlos Drummond

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