Archive for março \30\UTC 2011

março 30, 2011

nenhum amor que tive terminou /
resistem. apagados, esquecidos /
mas lá sempre estarão, pois são quem sou /
meu hoje se compõe de tempos idos //

escuto, como a cama os escutou /
os ecos tão distantes dos gemidos /
deviam se calar, mas são quem sou /
são dores e prazeres não remidos //

no entanto, a vida corre no seu rumo /
o tempo não caminha para trás /
lembranças são apenas doce fumo //

embora fraco e louco, algo incapaz /
na guerra do viver meu posto assumo /
pois sei que só na morte se tem paz. //*

março 26, 2011

estão distantes todos meus amores
do bairro ou da cidade ou do país
perdi as suas peles, seus odores
não sei, sinceramente, o que eu fiz

alguns estão chorando uns dissabores
uns outros tem ao riso mais feliz
informam-me de seus computadores
e creio ser verdade o que se diz

meu gato lambe os pelos em Dubai
meu gato ainda nem me conheceu
meu gato representa o que me trai

se for pra acontecer, aconteceu
nem sinto mais por quem, então, se vai
aquele que se foi, no fim, fui eu.

março 22, 2011

meu tato e o meu olhar: primeiro a pele
contato curvilíneo limpo, lindo
e lento vem de dentro, gera, impele
desejo caudaloso mais bem-vindo

momento que almejado por infindo
uma alma em movimento, se revele
dois corpos, um só ser, uno-indistinto
que a flama em nosso sangue se rebele

agora se evapora a consciência
consome-se, se vai, esvai, tem fim
por essa é que não vamos ter clemência

você sumiu de si, fugi de mim
sentimos de uma vez, da vida, a urgência
ouvindo ao sussurrar que nos diz ‘sim’.

março 15, 2011

jamais vi ser feliz
por mais de dez minutos
qualquer uma pessoa.

e aquele que se diz
feliz, feliz da vida
duvido que o foi
por nem metade disso.

março 14, 2011

uns poucos se viciam em cheirar pó
os outros são escravos de ter medo
do inferno que ameaçava sua avó
sequestro em que decepam o seu dedo

exporem na internet o seu segredo
ou ter que se aprender a viver só
da vida não entender, em nada, o enredo
em pânico: garganta sente o nó

incrível é que sempre alguém ganhou
em cima dos temores, casos vários
e a imprensa vem primeira no meu rol

políticos, psiquiatras, empresários
pastores, seguranças, eis um zôo
extraem do cagaço bons salários.

março 3, 2011

primeiro foi um dedo e não foi fácil
gemeu e reclamou mas pediu mais
carícias em seu corpo prazer táctil
primeira vez que realmente faz

o medo consistente está volátil
agora é hora certa outra jamais
molhada ser rasgada um pau pulsátil
depois da forte dor consegue paz

mas arde e não se solta e não consegue
embora com tesão e estando a fim
se esforça e se concentra e o ato segue

e pensa que não é pra ser assim
espera a uma luz que forte a cegue
de fato a irá buscar até seu fim.

março 3, 2011

existe uma roseira em meu quintal
antiga, um pouco estranha pro padrão
que vemos em qualquer jardim atual
e o digo com mais forte convicção

em certa tarde a olhei (eu estava mal)
meu cérebro formou uma ilusão
em cada rosa via um animal
daqueles que se tem pra estimação

os bichos, quais santinhos de papel
embaixo, datas… cruzes, as estrelas
mostravam quanto tempo o ser viveu

sumiram, tais loucuras tão singelas
no vento que soprou: volátil véu
de coisas que não são, mas pude vê-las.

março 3, 2011

borrachas prejudicam a libido
bebida, fumo e drogas dão prazer
e agrada ao paladar, vou lhes dizer
aquilo que faz mal, como é sabido

parece que o gozar ‘ora é temido
com base nos monturos de saber
no entanto, é o q’eu pude perceber
viver sem se esbaldar não faz sentido

se pregam abstinência e correção
eu tomo meu caminho pr’outro lado
não acho (pois não é) devassidão

me tomem, se quiserem, por errado
comendo ômega três pro coração
serão belos defuntos, bem “sarados”.

março 3, 2011

pecando por fazer psicologismo
distúrbios em quem vive pra poesia
folheiem biografias qualquer dia
deveras são comuns, e nisso eu cismo

alguns: drogadicção e o alcoolismo
uns outros: depressão ou distimia
outrora tudo foi ‘neurastenia’
que d’antes se tratava co’exorcismo

por certo vão dizer que isto é o antigo
agora a psiquiatria e os seus remédios
previnem manicômio, ou até jazigo

e curam, vejam só, até seus tédios
mas, qual um paranóico, vi perigo:
o império do sentir dos homens médios.