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Soneto (op.63) – Epitáfio

março 27, 2009

cuidado com este chão, seu curioso
e dê muita atenção, se velho ou moço:
aqui estão os restos de braguilha
aquele que não foi pai de família

não fez nada demais, não foi famoso
nem teve posto a prêmio o seu pescoço
não foi um nóia vão, rafael ilha
também não foi a sua engolir pilha

foi só um anormal que fez sonetos
batia muito mal ao violão
cantava, mas devia ficar quieto

uns dizem que era ruim, e outros, bão
somente o entendeu japonês preto:
os versos que fazia eram seu pão.

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Soneto (op. 62) –

março 27, 2009

prazer em se viver só pra polêmica
indício de se ter a mente anêmica
falar qualquer desgraça pra irritar
é prova que você vai se ferrar

o vício de viver a vida cênica
verdade, padecer da ordem sistêmica
na porra da estreiteza de ensinar
a gente que queria estar no bar

linguista que só sabe encher linguiça
xiliques que se dá feito cocota
a vítima de ser pura preguiça

herói de quem verseja idiota
eu tenho por rezada a sua missa
você, pra mim, é só uma anedota.

Soneto (op. 61) –

março 27, 2009

depois dos vinte e cinco eu cuidei deles
deixei-me cada vez mais para trás
a cada dia aqui eu me vi reles
ninguém jamais pensou que já fui mais

eu tento sem sucesso novos cremes
eu leio nos meus olhos ‘aqui jaz’
queria experimentar a outras peles
mas tenho que vender que tenho paz

segui ao meu destino sem horror
e não imaginei nem uma vez
que sou escravizada e sou menor

eu dei minha vida por vocês
meu prêmio por ter sido mãe melhor:
estrias, celulites, flacidez.

Soneto (op.60) –

março 27, 2009

direi mais uma vez que eu a amo
mas sei quem sou, e sei que você é
eu sempre soube, sim, eu não reclamo
e sei também se dá ou não dá pé

pareço e posso ser um pouco insano
mas nunca foi meu jeito ser mané
não vou ser o seu servo, nem seu amo
lição de quem trabalha com a fé:

se o anjo quer ser deus, vai, pois, trair
faz parte do seu ser, é seu papel
quem tem razão bem sabe o seu porvir

e foi alegação do ilustre réu:
melhor reinar no inferno que servir
ao tal pai do david lá no seu céu.

Soneto (op.59) –

março 27, 2009

moleque debilóide e analfabeto
você não sabe nada do que fala
está completamente sem escala
vai ter um bom caralho no seu reto

cultura que compete com a de um feto
que deve ser jogado numa vala
menino falastrão que não se cala
(por que eu não escolhi ser um concreto?)

critica pelas sombras, vai anônimo
com seu computador você é mau
ao vivo ficaria catatônico

você queria mais chupar um pau
eu sei do seu futuro e será cômico:
vai ser a passivona dos anal.

Soneto (op.58) –

março 6, 2009

um rei de sangue bárbaro no império
que vai tentar salvá-lo do final
planetas alinhados, deletério
cometa singra o céu, eis o sinal

estou ouvindo loucos, falo sério
mas sei ao mesmo tempo, tal e qual
estar enlouquecido. ministério
que veio a mim de lá: casa real

do povo que não come ao imundo
aqueles que se sabe tudo e pouco
de antiga danação ao mar profundo

eu canto meu cantar que já vai rouco
apenas o que é louco salva o mundo
e quem, pois, poderá salvar o louco?

Soneto (op.57) –

março 6, 2009

helena, lá no fundo, foi coitada
e páris, mal do nome, um imbecil
jamais terei rainha por safada
só entro em labirinto com o fio

soldado na trincheira vê rajada
não teme segurando seu fuzil
pois tem a proteção da sua amada
talvez também daquela que o pariu

não sou mulher, não sofro tanto assim
covarde sou, eu choro acovardado
recluso em palacete assobradado

apenas faço versos, metro errado
e vou perdendo tempo nesse prado
mas vou tecendo linhas até o fim.

Soneto (op.56) –

março 6, 2009

espero que consiga muitos decas
que vou ficar insone muitas noites
jogar que não teremos em Las Vegas
nas costas que se fodem, mil açoites

cheirava sem pensar muitas petecas
bebi, pra degustar, muitos oldeites
as noites foram todas muito incertas
não sou de colocar muitos enfeites

você pra mim é tudo, no momento
você fez despertar um sentimento
a minha luz (perdida ou escondida)

um curso vai deixando sedimento
não posso mais fingir ser eu isento
espero que eu mereça ter guarida.

Soneto (op.55) –

março 6, 2009

mulher, mulher, que dor aqui sem ti
affair vulgar que tive, que senti
morrer dentro de mim meu coração
de fome, por não ter mais ao seu pão

eu sei, eu não sou puro, eu menti
mas posso garantir, evoluí
eu sou seu protetor, como um leão
meu pranto eu acredito não ser vão

o cheiro do loureiro em meu quintal
remete falsamente ao seu pescoço
mentiras que se forjam o ideal

seu nome assinalado, osso por osso
memória, loucura, é belo fractal
que perco em queda livre no meu fosso.

Soneto (op.54) –

março 6, 2009

espero, quero, espero, quero, espero
adolescente linda e tatuada
olhar você com todo meu esmero
é bálsamo agradável na jornada

querer comer você, meu desespero
eu sei, doeu, doeu cada agulhada
aqui também me dói, dói por inteiro
eu sinto ao observar cada pisada

estrelas no pescoço vão brilhar
farei voar a sua borboleta
o belo diadema na lombar

você as nossas vidas sempre enfeita
na rua andando, vai se destacar
menina que é mulher, nos é perfeita.