Relendo Bishop

janeiro 14, 2012

Arte Una

perder as coisas nem é tão difícil
as coisas inerentemente têm
a perda em si, isso não é grande vício.

perder algo diário, algo propício
as chaves ou a hora pelo trem
perder as coisas nem é tão difícil

com prática, feroz, rápido, um míssil
lugares e os nomes e viagem
não valem a sua queda do edifício

perdi a um bom relógio (malefício?)
três casas, delas quais me lembro bem
perder as coisas nem é tão difícil

perdi duas cidades e um solstício
os rios e meu império e vivo sem
me faltam, tudo bem: um novo início…

até perder você, com tudo aquilo
amado, talvez seja nada além
perder as coisas nem é tão difícil
embora de um desastre seja indício.

Mais Pedras.

janeiro 13, 2012

distantes, os rochedos de alcatrazes
notável arquipélago deserto
recordo alguma coisa, duas fases
ainda que o lembrar se faça incerto

foi alvo de artilheiros, formou ases
impactos no granito nu e aberto
agora é santuário para as aves
iates (gente rica…) passam perto

agora, para mim é uma mulher
deitada e reclinada no horizonte
a bela silhueta em seu mister

cabelos e cabeça, o maior monte
imagem de iemanjá? bem, se o disser
dirão que não sou eu a melhor fonte.

paint it black

dezembro 29, 2011

acordo e meu tinteiro está no chão
vai toda derramada a tinta preta
(o sangue que alimenta o coração,
seu êmbolo interno, na caneta?)

recolho, já irritado, mancho a mão
e penso: que caralho, que buceta
e, porra, que fetiche sem razão
preciso muito mais é ter veneta

qualquer uma da bic, esferográfica
funciona muito bem no que realizo
ou lápis, tanto faz, se a força é ávida

importa só escrever, empenho nisso
mantendo minha mente com força ácida
escrevo até com merda, se preciso

Toothpuller, traduzia E. Bishop aos seus amigos americanos.

dezembro 27, 2011

as pedras que feriam os meus pés
o céu mais estrelado que já vi
pousadas, os seus bares e cafés
e o século dezoito em déjà vu

prefiro relembrar-me de viés
dos dias que por lá tão bem vivi
prefiro retratar por um través
o que jamais foi meu, mas que perdi

estava, certamente, o mais feliz
que pude estar por anos (tenha fé)
mas era tão-somente um chamariz

escute, não farei você minha ré
você fez o que fez; fiz o que fiz
ninguém pode negar ser quem se é.

pro olavo. não o de carvalho, não. o outro.

novembro 25, 2011

tentando ouvir estrelas, meu amigo?
prefiro ouvir, do louco, seu delírio
algum lamento triste de um mendigo
no qual tenta expurgar o seu martírio

aquele que se encontra sem abrigo
distante dos jardins cheirando a lírio
que enfrenta, sem temer, todo o perigo
em sua procissão feita sem círio

os astros sempre brilham lá no céu
as coisas são, podemos nós sabê-las?
eu vejo, sobre tudo, um certo véu

tais vozes, outro alguém já pode tê-las
aquele que na noite dorme ao léu
esse homem, meu poeta, ouve estrelas.

novembro 25, 2011

desculpem, meus amigos, pelos versos
que espalho por aí sem ter critério
entendo, nossos gostos são diversos
por óbvio, isso jamais nos foi mistério

no entanto, alguns poetas são imersos
naquilo que compõe, o seu império
melhor do que espalhar ditos perversos
porque o que mais vejo é o impropério

invadem ódios, hitler na polônia
assim eu noto o mundo aqui e agora
jamais que integrarei a tal colônia

eu canto sem lugar e sem ter hora
sintoma de viver em minha insônia
no aguardo impaciente pela aurora.

outubro 31, 2011

nos dias vai lambendo sua peçonha
nas noites longas nada mais se sonha
distante de qualquer outra pessoa
deitada ouve a voz que ainda ressoa

levanta e olha o sujo da sua fronha
apenas seu suor, ódio e vergonha
a marca solitária que leciona
a ser quem já ninguém mais se afeiçoa

até que ponto teve ou não escolha?
agora pouco importa, é consumado
arou e semeou, agora o colha

lamento (embora pouco) esse seu fado
ainda há de explodir feito uma bolha
talvez nem mesmo o cão fique ao seu lado

pro a. dos a.

outubro 18, 2011

encontro uma carcaça de animal
estava em avançado decompor
vibravam no seu pútrido sabor
as larvas, seu trabalho terminal

seguindo pelo curso natural
serão futuras moscas, sem valor
não servem pra poema algum compor
irritam, incomodam, fazem mal

de fato, ao cantar algo das moscas
remeto a coisas pouco toleráveis
ofendem tanto ouvidos quanto bocas

esperam ter imagens mais amáveis
no entanto, eu escolho as coisas toscas
pois nelas se deleitam mentes hábeis.

outubro 10, 2011

pessoas constantes
jamais compreendi por mais
d’uns poucos instantes

espero que ‘sangre’ o suficiente pra você. e por favor, não poste poemas-manifesto. são insuportavelmente chatos.

outubro 7, 2011

o doce da sua boca
o amargo dos seus olhos
fizeram minha vida
um tanto mais feliz
e pouco interessava
estar vazio depois

se tudo o que nós somos
provém de uma doença
(descrito vai assim
em nossos prontuários)
buscamos nos remédios
um símile do amor

os dias estão turvos
por vez prefiro o sonho
ou mesmo um pesadelo
do que sair da cama
pois sem você ali
a cama pouco encanta

espero que você
esteja mais feliz
ou pelo menos calma
e sem chorar direto
é tudo o que eu espero
distante de você.


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